sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O mundo conforme Hernán Casciari

Comprido, mas vale a pena ter essa visão do Globo Mundi.

Li uma vez que a Argentina não é nem melhor, nem pior que a Espanha, só

que mais jovem. Gostei dessa teoria e aí inventei um truque para

descobrir a idade dos países baseando-me no 'sistema cão'.

Desde meninos nos explicam que para saber se um cão é jovem ou

velho, deveríamos multiplicar a sua idade biológica por 7. No caso de

países temos que dividir a sua idade histórica por 14 para

conhecer a sua correspondência humana.

Confuso? Neste artigo exponho alguns exemplares reveladores.

Argentina nasceu em 1816, assim sendo, já tem 190 anos. Se dividirmos

estes anos por 14, a Argentina tem, 'humanamente', cerca de 13 anos

e meio, ou seja, está na pré-adolescência. É rebelde, se masturba,

não tem memória, responde sem pensar e está cheia de acne.

Quase todos os países da América Latina têm a mesma idade, e como

acontece nesses casos, eles formam gangues. A gangue do Mercosul é

formada por quatro adolescentes que tem um conjunto de rock. Ensaiam

em uma garagem, fazem muito barulho, e jamais gravaram um disco.

A Venezuela, que já tem peitinhos, está querendo unir-se a eles para

fazer o coro. Em realidade, como a maioria das mocinhas da sua idade

quer é sexo, neste caso com Brasil que tem 14 anos e um membro

grande. O México também é adolescente, mas com ascendente indígena. Por

isso, ri pouco e não fuma nem um inofensivo baseado, como o resto dos

seus amiguinhos. Mastiga coca, e se junta com os Estados Unidos, um

retardado mental de 17 anos, que se dedica a atacar os meninos famintos

de 6 anos em outros continentes.

No outro extremo está a China milenária. Se dividirmos os seus 1.200

anos por 14, obtemos uma senhora de 85, conservadora, com cheiro a

xixi de gato, que passa o dia comendo arroz porque não tem, ainda,

dinheiro para comprar uma dentadura postiça.

A China tem um neto de 8 anos, Taiwan, que lhe faz a vida impossível.

Está divorciada faz tempo de Japão, um velho chato, que se juntou às

Filipinas, uma jovem pirada, que sempre está disposta a qualquer

aberração em troca de grana.

Depois, estão os países que são maiores de idade e saem com o BMW do

pai. Por exemplo, Austrália e Canadá. Típicos países que cresceram ao

amparo de papai Inglaterra e mamãe França, tiveram uma educação

restrita e antiquada e agora se fingem de loucos. A Austrália é uma

babaca de pouco mais de 18 anos, que faz topless e sexo com a África do

Sul. O Canadá é um mocinho gay emancipado, que a qualquer momento pode

adotar o bebê Groenlândia para formar uma dessas famílias alternativas

que estão de moda.

A França é uma separada de 36 anos, mais puta que uma galinha, mas

muito respeitada no âmbito profissional. Tem um filho de apenas 6

anos: Mônaco, que vai acabar virando puto ou bailarino... ou ambas as

coisas. É a amante esporádica da Alemanha, um caminhoneiro rico que

está casado com Áustria, que sabe que é chifruda, mas que não se

importa.

A Itália é viúva faz muito tempo. Vive cuidando de São Marino

e do Vaticano, dois filhos católicos gêmeos idênticos. Esteve casada em

segundas núpcias com Alemanha (por pouco tempo e tiveram a Suíça),

mas agora não quer saber mais de homens. A Itália gostaria de ser

uma mulher como a Bélgica: advogada, executiva independente, que

usa calças e fala de política de igual para igual com os homens

(A Bélgica também fantasia de vez em quando que sabe preparar

espaguete).

A Espanha é a mulher mais linda de Europa (possivelmente a França se

iguale a ela, mas perde espontaneidade por usar tanto perfume). É

muito tesuda e, quase sempre, está bêbada. Geralmente se deixa foder

pela Inglaterra e depois a denuncia. A Espanha tem filhos por todas as

partes (quase todos de 13 anos), que moram longe. Gosta muito deles,

mas a perturbam quando têm fome, passam uma temporada na sua casa e

assaltam sua geladeira.

Outro que tem filhos espalhados no mundo é a Inglaterra. Sai de

barco de noite, transa com alguns babacas e nove meses depois, aparece

uma nova ilha em alguma parte do mundo. Mas não fica de mal com ela.

Em geral, as ilhas vivem com a mãe, mas a Inglaterra as alimenta. A

Escócia e a Irlanda, os irmãos de Inglaterra que moram no andar de

cima, passam a vida inteira bêbados e nem sequer sabem jogar futebol.

São a vergonha da família.

A Suécia e a Noruega são duas lésbicas de quase 40 anos, que estão

bem de corpo, apesar da idade, mas não ligam para ninguém. Transam e

trabalham, pois são formadas em alguma coisa. Às vezes, fazem trio com

a Holanda (quando necessitam maconha); outras vezes cutucam a

Finlândia, que é um cara meio andrógino de 30 anos, que vive só em um

apartamento sem mobília e passa o tempo falando pelo celular com

Coréia.

A Coréia (a do sul) vive de olho na sua irmã esquizóide. São gêmeas,

mas a do Norte tomou líquido amniótico quando saiu do útero e ficou

estúpida. Passou a infância usando pistolas e agora, que vive só, é

capaz de qualquer coisa. Estados Unidos, o retardadinho de 17 anos,

a vigia muito, não por medo, mas porque quer pegar as suas pistolas.

Irã e Iraque eram dois primos de 16 que roubavam motos e vendiam as

peças, até que um dia roubaram uma peça da motoca dos Estados Unidos

e acabou o negocio para eles. Agora estão comendo lixo.

O mundo estava bem assim até que, um dia, a Rússia se juntou (sem

casar) com a Perestroika e tiveram uma dúzia e meia de filhos. Todos

esquisitos, alguns mongolóides, outros esquizofrênicos.

Faz uma semana, e por causa de um conflito com tiros e

mortos, os habitantes sérios do mundo, descobrimos que tem um

país que se chama Kabardino-Balkaria. É um país com bandeira,

presidente, hino, flora, fauna... e até gente! Eu fico com medo

quando aparecem países de pouca idade, assim de repente. Que

saibamos deles por ter ouvido falar e ainda temos que fingir que

sabíamos, para não passar por ignorantes.

Mas aí, eu pergunto: por que continuam nascendo países, se os

que já existem ainda não funcionam?

NOTA SOBRE O AUTOR:

Hernán Casciari nasceu em Mercedes (Buenos Aires), a 16 de março de

1971. Escritor e jornalista argentino. É conhecido por seu trabalho

ficcional na Internet, onde tem trabalhado na união entre literatura

e blog, destacado na blognovela. Sua obra mais conhecida na

rede, 'Weblog de una mujer gorda', foi editada em papel, com o

título: 'Más respeto, que soy tu madre'.

Nenhum comentário: